16/02/2011

Timbalada é Timbalada, axé é outra coisa

Esse post tem caráter de esclarecimento público: Timbalada é uma coisa e axé outra. Nada contra o axé (não mesmo!), mas me sinto obrigada a colocar os pingos nos is, cada macaco no seu galho, ado a-ado cada um no seu quadrado.
Antes de entrar no x da questão, deixe-me contar uma historinha. Lá pelos idos de 1993 algo mudou no meu repertório musical. Era um domingo clássico baiano: sol, maresia e um pai, que mora em Brasília há anos, ávido por praia. No caminho ele sacou uma fita cassete e me disse “prepare-se para ouvir o som que vai mudar a música baiana” (não me perguntem onde arranjou, em Brasília é que não foi). Batuques enlouquecidos e a letra mais nonsense invadiram os meus ouvidos: “Eu canto pra lua porque amo a lua, ai que lua, ai que lua, ai que lua, ai que lua / eu canto pra terra, porque amo a terra, ai que terra, ai que terra, ai que terra/ tiquititáááááá / pãpãpã pananananã vai! pananananã vai!”.  Aquilo era a coisa mais louca, vibrante e primata (óbvio que aos 12 anos eu devo ter pensado em outros termos, mas vá lá) que eu já tinha escutado. Meu pai e Nostradamus ali ó, fazendo suas profecias.
    Olho de Thundera, dê-me a visão além do alcance!  (Foto por @carlessolís)

Por trás desse movimento está um gênio que atende por Carlinhos Brown. Além de compositor inspiradíssimo e artista mil e uma utilidades, ele tem o olho de Thundera, ousado que só. Brown teve a brilhante idéia de criar o Candyall Guetho Square, que foi a Neverland de alguns verões soteropolitanos. Um reduto timbaleiro incrustado no meio da comunidade do Candeal, com acesso por ruelas de barro, cercado por casinhas pobrinhas com as melhores “varandas-camarotes”, palco central e peles coloridas. Foi lá que surgiu a famosa volta do Guetho, fervilhante, misturada e suada, regada a muita sorveróska de cajá e umbu (meu Deus, preciso patentear isso! Para os que não conhecem, é sorvete de fruta batido com vodka, uh lalá!). 
O Guetho se foi, mas Brown não nos deixou na mão. Fomos presenteados com o Museu du Ritmo, onde hoje rolam os ensaios da Timbalada e o Sarau du Brown, a festa mais incrível do verão soteropolitano. É tão difícil falar sobre o Sarau, só vendo pra crer.  Um lugar em ruínas, uma arena a céu aberto, uma festa comandada por um Brown que resgata e afirma com muito amor a cultura afro. E aqui volto a essência desse post: Timbalada não é axé. É percussão, é batida afro, é banho de pipoca, é obaluê, é patrimônio histórico da Bahia. Mas se é Bahia, é que nem coração de mãe. Cabe axé, cabe pop, cabe rock, cabe forró...que o digam todos os convidados que batem ponto por lá: Toni Garrido, Nando Reis, Falcão, Ivete, Roberta Sá, Pepeu Gomes e por aí vai.
Mas vamos deixar de lero lero e ir direto ao ponto. Vamos dar a volta no Ritmo? Garanto muita serotonina e economia de alguns bons reais com terapia.
Recomendação: vá de tênis, por favor. Não faça que nem Nanda, nossa mascote, que saiu da volta assim:
Depoimento da perdida: “Vi o vídeo, rs. Passou um filme na minha cabeça, eu louca atrás da minha sandália, quando de repente... mudou de lado e a multidão veio pra cima de mim”.
E tendo dito!
Por Júlia Sobral

7 comentários:

  1. Nada como uma volta no Guetho para nos tirar do "piloto automático" e colocar todas as emoções para suar! Só de lembrar das histórias, e daquele tumtumtum que começa da ponta do dedão do pé e vai subindo pelo corpo... ui! E meu apoio total e solidário a Nanda, eu também não passei no teste da sandália na minha primeira vez!
    Isabella Abalos

    ResponderExcluir
  2. sarau pra mim vai ser sempre a confirmação de que é verão, somos felizes e um momento com amigos/música/energia boa pode durar eternamente.

    vai faltar você no próximoooooooooo!

    ResponderExcluir
  3. Nada melhor do que uma boa música para expressar o inexprimível, depois do silêncio, claro!
    Sarau é muito booom, música boa, gente bacana e uma energia sem igual, até para um flamingo como eu! rsrs
    Pior do que perder a sandália.. foi achar outra do meu mesmo pé e mesmo tamanho, e por fim.. me desfazer também desta achada! Unbelievable!! Conspiração total para manter meus 'pés no chão'! rsrs

    ResponderExcluir
  4. Descrição perfeita dos domingos de Candeal Gueto Square. Claro que naquele tempo o ingresso não era tão caro, o que nos levava quase todos os domingos pra lá.
    Aquele chão pintado de verde que colava e deixava a sandália toda imunda.
    Quantas voltas dadas naquele guetto, hein...
    Seu pai é que tinha razão...Salve Brown!
    Amei a lembrança!
    Bjos Ciu

    ResponderExcluir
  5. Ai que saudade da Bahia meu Deus... ô terra boa!Julinha, vem me buscar!

    ResponderExcluir
  6. Ai, Jú, que inveja de vc que está no verão de Salvador... SAUDADE da minha TERRA DE TODOS OS SANTOS e MUITA saudade do Guetho. Love

    ResponderExcluir
  7. falou e disse: timbalada não é axé, brown é um gênio, o guetho foi uma neverland e o sarau é A festa! beijo, ju!

    ResponderExcluir